28 de julho de 2020

Abertas as candidaturas à quarta edição do Tourism Explorers



Já se podem candidatar à quarta edição do Tourism Explorers, programa de criação e aceleração de startups do setor do turismo, organizado pela Fábrica de Startups e pelo Turismo de Portugal.

O programa tem duas fases: A de Ideação (candidaturas até 7 de Outubro) e a de Aceleração (16 de Outubro), ambas com inscrição gratuita.

A fase de Ideação visa transformar uma ideia num negócio, partindo de um desafio específico do setor do Turismo. Envolve três dias de bootcamps e as melhores equipas serão selecionadas para a fase de Aceleração.

A fase de Aceleração consiste em 6 dias de bootcamps com acesso a sessões de mentoria com especialistas do turismo e workshops, que irão ajudar a definir a melhor estratégia para o negócio e adaptá-lo ao mercado do turismo.

O Tourism Explorers decorre em 12 cidades em simultâneo. Cinco são da Região Centro: Aveiro, Coimbra, Caldas da Rainha, Covilhã, Viseu.

A melhor equipa de cada cidade irá à grande final nacional (29 de Novembro). Os 12 finalistas serão avaliados por um júri de especialistas do Turismo e investidores. O vencedor recebe um incentivo no valor de 10.000€.

Mais informações aqui:

21 de julho de 2020

UniPlanet:11 anos a plantar inspiração



Era Inverno e a cidade parecia gelada do outro lado da janela. Patrícia Esteves contemplou-a durante alguns instantes, com as mãos envoltas numa chávena a fumegar. Pousou o chá de erva doce na secretária, espreitou o ecrã, levou o dedo ao botão esquerdo do rato e clicou “publicar”. Sorriu quando viu a notificação vermelha a assinalar uma partilha. Logo surgiu mais uma. Depois outra. E outra. Em poucos segundos, eram dezenas. Quando acabou de beber o chá, eram milhares. O seu artigo sobre trabalho infantil na produção do chocolate em África tinha acabado de se tornar viral no seu blog “O Único Planeta que Temos”. Na manhã seguinte, quando ligou o computador, nem queria acreditar nos seus olhos. O artigo tinha 600 mil partilhas. E passava um milhão de visualizações.

Foi aí que Patrícia sentiu que devia transformar o seu blog num projeto mais específico, um website dedicado à sustentabilidade, aos direitos humanos e dos animais, à alimentação saudável, à agricultura biológica e à mobilidade urbana. Chamou-lhe UniPlanet. Hoje, reúne cerca de milhão e meio de visualizações por ano, tem 59 mil seguidores no Facebook e quase três mil no Instagram. E acaba de lançar uma iniciativa ligada ao turismo sustentável em Portugal.



A preocupação ecológica surgiu cedo. E naturalmente. Por mais que se esforce, Patrícia não consegue encontrar uma origem ou sequer um motivo. “Aconteceu de forma natural, quase inata”. Na altura da secundária, se fosse preciso, andava um ou dois quilómetros com um pacote de sumo vazio na mochila até encontrar um ecoponto. Tornou-se vegetariana em 2002, com 17 anos. “Para além de descobrir que era intolerante à lactose, ganhei aversão à carne, sentia que conseguia perfeitamente viver sem comer animais”.

Nas férias com familiares, separava o lixo religiosamente. “Inicialmente eles não separavam, mas viram-me a fazer, dia após dia, e começaram a separar também”. Alguns, inclusivamente, levaram essa tendência para as suas casas. “Aconteceu sem qualquer tipo de insistência ou imposição. Na comunidade vegan há pessoas muito persistentes, que apontam o dedo e impõem comportamentos. Eu prefiro seguir pelo exemplo. Nós damos o exemplo e depois as pessoas escolhem entre adotá-lo ou não”.



Foi essa a mentalidade que incutiu no seu blog, lançado em 2009. Também aconteceu de forma natural. “Acho que nunca tinha lido um blog na vida”, refere, sorridente. “Simplesmente cheguei a casa e decidi criar um. Sou muito espontânea, as ideias surgem-me e concretizo-as. É como se fosse uma experiência, quero ver o que acontece”. Batizou-o “O Único Planeta Que Temos”. Foi ganhando popularidade, venceu prémios, multiplicou visualizações.

Escrevia artigos sobre temas que considerava pertinentes ou partilhava conteúdos inspiradores. “Mostrava exemplos de projetos e boas práticas, tanto cá como no estrangeiro. E ficava ao critério das pessoas ou das empresas adotar ou não esses procedimentos”. Patrícia também gosta de desmistificar temas ligados à ecologia ou ao vegetarianismo. Um dos primeiros artigos do blog foi sobre o documentário “Soja em Nome do Progresso”, onde é revelado que “a destruição da floresta amazónica para plantar soja não se deve ao consumo vegetariano, mas à alimentação da indústria do gado”.



Em 2011 cria a página do Facebook, que vem ampliar a divulgação. “As partilhas passaram a ser às centenas de cada vez”. Os anos foram passando e adesão ao blog aumentando. Após o referido artigo viral, Patrícia decidiu evoluir o projeto. Começou por alterar o nome. “Queria algo mais objetivo e sintético”. Escolheu UniPlanet. Alterou também o formato. “Mais website de notícias, menos blog”. A mudança fez-se sentir de imediato. “Os nossos artigos começaram a ser partilhados por associações e por instituições, até governamentais. Os conteúdos eram os mesmos, mas pronto”, afirma, com um sorriso irónico.

O acréscimo de credibilidade da restruturação levou até os artigos da UniPlanet às salas de aula. “O meu irmão (14 anos) ligou-me uma vez a contar que estava na aula de Geografia e a professora tinha acabado de dizer que existia uma página chamada UniPlanet que eles deviam seguir”, relembra Patrícia. “Ela frisou o facto de estarmos a criar hortas comunitárias”.




A inspiração veio de Londres. Durante uma viagem à capital do Reino Unido, Patrícia descobriu o conceito das hortas comunitárias, onde residentes urbanos se organizam para gerir um terreno e cultivar alimentos. Quando regressou, trouxe a ideia com ela e estava decidida a semeá-la algures. Começou a averiguar terrenos e descobriu um a poucos quilómetros de Coimbra, num vale escondido onde as águas do Mondego escorrem tranquilamente perante montanhas imponentes e margens selvagens. “Pertencia a um senhor que não estava a dar uso ao espaço, o qual nos cedeu com uma única condição: não usar pesticidas. Foi uma coincidência engraçada, pois ia ao encontro do que eu defendia”.





Patrícia abriu inscrições para eventuais interessados na comunidade do UniPlanet e a adesão foi em massa. “Quando dei por ela tinha uma lista de espera de 70 pessoas de todo o país”. Criou um grupo no Facebook dedicado à horta comunitária, onde os candidatos a agricultores começaram a debater ideias, desde a preparação caseira de fertilizantes ecológicos a truques para afugentar javalis. Na maioria eram iniciantes, por isso Patrícia obteve uma formação na Turisforma de agricultura biológica para o grupo, composto por 15 pessoas.





Os sábados do Outono de 2018 começaram a ser preenchidos na horta, a limpar o terreno e a arrancar ervas daninhas, a aprender técnicas e a saber que alimentos plantar, de acordo com as estações. Dividiram o terreno em 12 talhões, um para cada pessoa/família e sortearam-nos. Compraram enxadas, sachos, ancinhos, regadores, baldes e cordel de sisal para delimitar os espaços. E começaram a semear. Diversos tipos de couve, brócolos, ervilhas, alhos, nabiças, alfaces, salsa, cebola, tomates, batatas. Para espanto geral, Patrícia plantou até amores-perfeitos. “São comestíveis, podem ser usadas em saladas e como decoração comestível em pratos ou sobremesas”.





O grupo tornou-se próximo. Faziam piqueniques, iam apanhar cogumelos, organizavam limpezas de praias e até combinaram ir ver eclipses lunares às quatro da manhã. Fizeram escadas para aceder ao rio e até se falou na possibilidade de construírem uma nora para tirar água do rio como antigamente. De tempo a tempo, entusiasmados e orgulhosos, partilhavam fotografias do progresso das suas hortas e das colheitas. Os desafios que encontravam eram sempre superados com a ajuda do dono do terreno, Agostinho Cortez. “Foi, sem dúvida, uma figura-chave no projeto”, diz Patrícia.

Tudo corria de feição, mas 2019 não se revelaria um ano fácil. Na Primavera, roubaram-lhes todas as ferramentas e os sacos de adubo. No Inverno, as cheias do Mondego inundaram a horta. Em 2020, a presente pandemia atrasou os trabalhos de recuperação. Mas Patrícia está determinada em arregaçar as mangas e reerguer o projeto. “À partida no início do Outono vamos voltar”.

Oryza Guest House (Bencanta, Coimbra)

Durante este período, Patrícia criou mais duas hortas comunitárias, também em Coimbra (Bencanta). Conheceu a ORYZA Guest House & Suites e reparou num terreno que não estava a ser utilizado. Visitou o espaço, conheceu os proprietários – o casal Sérgio Santos e Lídia Gonçalves – e, sem rodeios, propôs a criação de uma horta comunitária. “Gostaram da ideia. A Lídia até já conhecia o UniPlanet e tudo”. Patrícia meteu mãos à obra, divulgou o novo projeto conjuntamente com o Oryza, ela no seu website, eles nas suas redes sociais. Pouco tempo depois, já estava tudo organizado e dividido em talhões e com cerca de 20 agricultores a introduzir esta nova rotina nos seus quotidianos.



“É um projeto completamente dentro do conceito city&nature que é exatamente a filosofia da nossa Guest House”, afirma Lídia. A proprietária revela sentir “um gosto enorme” em receber todas as pessoas que vão cultivar no seu terreno. “Trazem a sua família por vezes, partilham ideias, sementes, etc. É extraordinário ver o poder de um grupo com os mesmos objetivos: produzir os seus legumes e frutas 100% biológicos. A experiência está a ser maravilhosa, que venham muito mais anos de partilha e muitas culturas saudáveis”, afirma.




E mais culturas viriam. Ao lado desta horta estão os terrenos da Casa do Juiz, uma associação de solidariedade social e centro geriátrico, onde existe um enorme bambuzal. Um dia, Patrícia viu um dos responsáveis no terreno. Abordou-o para ver se conseguia obter algumas canas. “Dão muito jeito para fazer estrutura de tomateiros”. No entanto, havia um duplo propósito na abordagem. “Vi-o a usar glifosato, um herbicida e disse-lhe: sabe, se tivesse um terreno cultivado, com hortas, não precisava de meter isso nas ervas. Se tivesse aqui as pessoas a trabalhar na terra não precisava de fazer isso”. Patrícia terá percecionado recetividade na sua expressão e avançou de imediato com uma ideia: “Porque não criar aqui uma horta escolar? Um projeto intergeracional, que junte as crianças com os idosos? Seria muito giro”. Pouco tempo depois, a associação deu-lhe luz verde. 


Patrícia começou a abordar escolas e conseguiu duas. A Escola Básica de Fala (terceiro e quarto ano) e o Jardim-de-infância de São Bento. Conseguiu, inclusivamente, apoio da Junta de Freguesia de São Martinho para transportar as crianças num autocarro. “Eu tenho muita lata”, afirma, sorridente.

Futuramente, vão criar estruturas de “hortas levantadas”, para facilitar a participação dos idosos e possibilitar a participação de pessoas com mobilidade reduzida. “Já temos os esquemas feitos, só falta materializar”.



Mas há mais hortas comunitárias, no presente e no futuro de Patrícia. Tem um projeto pronto a implementar na Nazaré, “numa quinta dentro da vila que fica a 10 minutos da praia a pé”, que só ainda não arrancou devido à pandemia. E já tem um novo em mente para o futuro: Uma horta terapêutica, direcionada a pessoas com problemas mentais (ansiedade, depressão, bipolaridade, etc.) e ex-toxicodependentes. “Será, principalmente, uma horta onde vão ser plantadas ervas aromáticas e chás (infusões). O contacto com a natureza, com a terra e neste caso com as ervas aromáticas tem um efeito terapêutico”, afirma Patrícia, que está a averiguar potenciais espaços para albergar este novo projeto.



Paralelamente a esta viagem pela blogosfera e pelas hortas comunitárias, Patrícia licenciou-se em Turismo, Lazer e Património, com um posterior mestrado em Gestão. Presentemente, quer investir conhecimento no Centro. Está a tirar um doutoramento – “O destino turístico Coimbra: Governança, oferta turística e comunidade local” – através do qual está a estudar a relação de Coimbra com o turismo e a investigar estratégias para o tornar mais sustentável na cidade.

Sustentabilidade é uma palavra que a apaixona e a move. “Ela torna as coisas mais funcionais, mais em harmonia com os recursos que a Terra nos dá, ao mesmo que criamos uma sociedade mais equilibrada, ou seja, sustentabilidade social”.



Motivada e inspirada por isso, criou uma iniciativa no seu UniPlanet que envolve um ciclo de artigos dedicado a projetos turísticos a nível nacional que se destacam pelo seu compromisso com a sustentabilidade. “A minha ideia é apoiar o turismo nacional e sustentável através destas entrevistas, dando a conhecer estes projetos à minha comunidade de leitores”.

Patrícia tem testemunhado imensos exemplos de boas práticas prol da sustentabilidade. “O reaproveitamento de materiais, a criação de hotéis para abelhas, a implementação de piscinas biológicas e hortas biológicas, a disponibilização de bicicletas, entre muitos outros exemplos que podem conhecer nos artigos já publicados ou a publicar em breve”.

Neste âmbito, já deu a conhecer inúmeros empreendimentos a nível nacional. Na Região Centro, obteve a colaboração da Luz Houses (Fátima), Areias do Seixo (Torres Vedras), Casa das Palmeiras  (Mangualde), Oryza (Coimbra) e do Chão do Rio (Seia).

“Parece-nos essencial aprender e partilhar aprendizagens sobre como, em conjunto, a humanidade pode fazer a transição para um modo de vida em sintonia com o sistema natural”, afirma Catarina Vieira, gerente deste último empreendimento.

Chão do Rio (Seia)

Explica que conheceu a UniPlanet através da Raízes Mag, revista (cofundada por Patrícia) que assina e que partilha com os seus hóspedes no Chão do Rio. A natureza, para Catarina, é algo incrível. “Transcende-nos a sua capacidade de se autorregular, cuidar do todo, eliminar ameaças e recomeçar. E, neste momento, nós a espécie humana somos a ameaça”, garante. “É por isso que projetos como a UniPlanet, que se preocupam, que partilham boas práticas, que agem e inspiram à ação são essenciais neste processo de transição. A tomada de consciência é essencial para a mudança, mas não chega a tomada de consciência. É preciso acreditar que a mudança é possível, é preciso ter esperança. Só tendo esperança somos motivados ao passo seguinte essencial para a transição: a ação”.



E esperança não é uma palavra estranha para Patrícia e o seu UniPlanet. Quando lê as muitas mensagens que recebe dos seus leitores, é comum encontrá-la lá. “Eles dizem que lhes damos esperança num mundo melhor”.

E encontra também a palavra “inspiração”. Pessoas que afirmam ter ampliado a sua consciência ecológica ao visitar o website, outras que agradecem o empurrão motivacional para melhorar a alimentação e, consequentemente, a saúde. Lojas vegan, ecológicas ou até fabricantes de embalagens de take away que começaram a comercializar pratos comestíveis feitos de farelo de trigo em Portugal, após lerem o artigo sobre a empresa polaca que os produz. Ou até a história de um senhor brasileiro que há anos tentava – sempre sem sucesso – erradicar os refrigerantes da sua dieta, e que, finalmente, conseguiu encontrar a determinação para o fazer após ler um artigo sobre o tema no UniPlanet.

As mensagens na caixa de correio são diversas, mas a reação de Patrícia quando as lê é sempre a mesma. Um olhar emocionado e um sorriso de orelha a orelha. “Nunca sabemos quem estamos a inspirar do outro lado do ecrã”.

26 de junho de 2020

Casa Santa: Onde habita o sonho da Rita (II)



As portadas de madeira rústica estão abertas e deixam entrar a brisa de Verão na sala. A única fronteira são duas cortinas brancas que ondulam à sua passagem e, de vez em quando, permitem ao olhar perder-se nas águas do Mondego e nas montanhas cheias de verde de Penacova.

Até há pouco tempo, esta casa estava sem ninguém. Foi também num Verão e também com as portadas abertas, que Rita Cassilda passou lá alguns dias, em introspeção. O seu projeto turístico, o Indústria Central (cuja história contámos aqui), tinha ficado órfão de espaço e não ia avançar. Rita tinha depositado incontáveis horas de energia, dedicação e conhecimento nesse desígnio e procurava agora uma solução. Dessa vez era de noite. Foi na companhia das estrelas, do luar e do som das corujas que a encontrou. Ia ser esta casa, que pertencera à sua avó, a adotar e dar abrigo ao seu velho sonho.



“Uma plataforma física de alojamento, promoção e centralização de serviços e produtos do Centro de Portugal que interliga rotas e património de uma forma colaborativa, procurando soluções que permitam um relacionamento mais harmonioso com o nosso ambiente natural”. Isto era o que estava previsto no seu Indústria Central. Todas essas valências são ser recriadas aqui. Inclusivamente, será implementada uma novidade, que lhe veio reforçar a convicção que este desvio a levou ao caminho certo.
A casa tem dois andares. No andar de cima, há três quartos, uma sala e uma cozinha. Rita começou de imediato a planear as remodelações. Pintou paredes, mudou quadros de eletricidade, instalou janelas novas e reaproveitou a madeira antiga. Redecorou todo o espaço à sua imagem. “Com bom ambiente, com boa onda”, em sintonia com o seu Santa Rita Lifestyle uma página do Facebook que criou para partilhar dicas sobre sustentabilidade e um estilo de vida de consumo consciente, tal como curiosidades do mundo da biologia, a sua área académica.



“Aqui vai funcionar a nossa oferta de alojamento”, afirma Rita. Apesar de ainda faltarem alguns acabamentos (pintura exterior e algumas renovações adicionais), a casa já costuma receber hóspedes, que a alugam durante períodos de férias. “O processo de remodelação está a ser feito de forma sustentada. Para já, vou fazendo o que está ao meu alcance e recorrendo a algumas pessoas para ajudar em determinados trabalhos. No entanto, quero fazer uma reabilitação a sério, por isso vamos submeter o projeto a uma candidatura para obter fundos”.




Quando esse processo estiver concluído, Rita prevê transformar a casa num “espaço ímpar de turismo sustentável e criativo”. Para além do alojamento, o hóspede terá a oportunidade de viver uma experiência de “conexão com a natureza” e de “consciência sustentável”, que lhe permitirá aprender a poupar recursos e ganhar uma maior consciência sobre o seu estilo de vida. “São ensinamentos que vão permitir poupar em casa, no corpo e no planeta”.

No decurso da sua estadia, os hóspedes vão poder experienciar compostagem, reaproveitamento de energia e recursos, formas conscientes de consumo. “Terão sempre a opção de optar entre o convencional e o alternativo. Vão existir painéis informativos com guidelines, que explicam as vantagens de determinada opção”, assegura Rita.



Vai ser também possível cozinhar refeições vegetarianas com recursos próprios. No jardim há uma horta cheia de legumes e ervas aromáticas. “Quando quiserem decidir o que vão jantar, basta ir lá fora, escolher e depois preparar, numa cozinha com vista para o rio e as montanhas”.




A horta está também recheada de ervas e plantas medicinais. “Podem colher hortelã fresca e fazer um chá que, para além de delicioso, é excelente para a digestão. Ou um chá de dente-de-leão que é ótimo para o sistema imunitário. Ou, se quiserem uma noite mais tranquila e relaxante, podem optar por camomila, valeriana ou flor de laranjeira”.
Futuramente, irá implementar a produção caseira de cogumelos.



Rita gosta de fundir a sua faceta científica de bióloga com a espiritualidade. Dessa mistura, surgiu o nome deste seu novo projeto: Casa Santa. “Há um mundo santo que desconhecemos e que descobrimos quando nos começamos a conectar com a natureza. Não é no sentido religioso, mas espiritual. Quero que esta casa seja um ponto de coneção com esse mundo santo que nos rodeia”.



E essa coneção será aprofundada com os planos que a jovem empreendedora tem para o andar de baixo. Ao descer as escadas há uma sala ampla com paredes de rocha rugosa. “Era aqui que meu avô tinha os seus serões com os amigos”, refere Rita, acenando para um canto onde existe uma garrafeira. “Foram eles que escavaram isto tudo com picaretas”.

Esse espaço vai ser convertido num workspace, onde serão feitos “workshops diversos e academias artísticas”. Haverá também liberdade para partilhar talentos.  “Se tiveres algum skill que possas pôr lá em prática para o benefício da Casa, as modalidades ajustam-se ao teu contributo, podes até nem pagar nada”, atesta a empreendedora, com um sorriso.



Neste piso térreo, Rita pretende também remodelar o pátio, recuperar um forno de lenha, construir uma cozinha comunitária e transformar os currais em mais unidades de alojamento. Um conjunto de objetivos que está, para já, dependente de uma candidatura bem-sucedida a uma linha de investimento.
“Um projeto sustentável é aquele que está constantemente a ser reformulado para ser viável no presente e no futuro a curto, médio e a longo prazo”, diz Rita.



E, como tínhamos mencionado, esta reformulação trouxe uma importante novidade. Paralelamente a tudo o resto, Rita vai começar a organizar diversas atividades na natureza. Identificação de espécies comestíveis e medicinais, construções naturais de abrigos, descer o rio em kayak ou colheita de cogumelos são algumas das atividades que vai implementar.

“Nesses passeios vamos treinar a visão para o mundo natural, compreender a face cíclica da natureza, detetar as espécies endógenas, explorar texturas, distinguir pormenores”. Faz uma pausa, pisca o olho e diz: “Há cogumelos quase iguais, como o tortulho e o barriga de frade. Mas um mata e o outro não”.
Rita está, presentemente, em busca de parceiros que trabalham na área da sustentabilidade para propor sinergias para atividades e workshops. Já estabeleceu parcerias em Penacova, Arganil, Coja, Lousã e Miranda do Corvo. “Vou ser a primeira guia de turismo sustentável e criativo no Centro de Portugal”.

Nas suas palavras é notória a afeição ao interior. “É uma região especial e rica, com uma grande diversidade de experiências, pessoas e locais. Não é por acaso que se diz que o Centro de Portugal é ‘um país dentro do país’ ”.




Este Verão, vai explorar os territórios de Sicó, Buçaco e Serra da Boa viagem. “Eu, a minha cadela e o meu Clio”, afirma, sorridente, enquanto sobe as escadas e regressa às portadas que se abrem para o mundo. Contempla a paisagem. “Quando chove e faz sol ao mesmo tempo, há arco-íris que nascem neste vale, é lindíssimo”. O olhar perde-se na distância. Partilha que “choveu muito” na sua vida quando os planos para o Indústria Central não se concretizaram.

O seu arco-íris foi perceber que quando os planos não decorrem como se pretende, se houver capacidade de adaptação, por vezes o desfecho revela-se ainda melhor.  “O que eu ia fazer no Indústria, posso fazer aqui, nesta casa, nas minhas atividades e com os parceiros. A diferença é que lá ia estar presa a um local fixo, que me ia consumir, endividar e, possivelmente, arruinar com esta pandemia do Covid19. Aqui e agora, os objetivos mantém-se. Mas com muito mais liberdade”. 


25 de junho de 2020

Indústria Central: Onde se fabricou o sonho da Rita (I)



Abril de 2019. Faltavam poucos dias para a Páscoa e Rita Cassilda estava a fazer folares numa padaria em Penacova. De tempo a tempo, limpava a farinha das mãos para consultar o telemóvel e fazer refresh no mural da página do Facebook do Apoio ao Investimento Turístico do Turismo Centro de Portugal. A qualquer momento iam ser anunciados os finalistas do Prémio José Manuel Alves, concurso de empreendimento turístico organizado anualmente por essa entidade. Rita já tinha participado no ano anterior e não tinha sido apurada.

No entanto, estava confiante na renovação que tinha dado ao seu Indústria Central, um projeto que assenta numa plataforma física de promoção e centralização de serviços e produtos de todos os municípios do Centro de Portugal, instalada numa antiga zona industrial de extração de inertes em Penacova, reabilitada e transformada para esse efeito.

Esse fora o negócio da sua família durante décadas. Na infância, Rita lembra-se das tardes lá passadas a brincar e a deslizar, sentada num pedaço de chapa, naqueles enormes montes de areia que pareciam dunas do deserto aos olhos de uma menina de cinco anos. Chegou a ter vários desses trenós artesanais metálicos, que o pai construía a partir de uma velha porta de um camião ou de outros materiais soldados. “É bem inventor, o meu pai”.



Os anos passaram, Rita apaixonou-se pelas artes e quis seguir dança. No entanto, os pais convenceram-na a enveredar por outras áreas. “Saúde ou ciências”. Acabou por entrar em Biologia. Hoje, com 29 anos, olha para trás e ri-se da menina que tinha pavor dos bichos e dos bosques. “Graças a essa pressão – aproveito para agradecer à minha mãe por ela – esse pavor virou amor e agora entendo a magia deste mundo natural, da nossa casa Terra e da importância de um ecossistema equilibrado que sustenta o Homem”.

Concluído o curso, trabalhou três anos em educação ambiental com pessoas com necessidades educativas especiais e também numa cooperativa agrícola de cogumelos. Após esse período, ingressou num mestrado em Biodiversidade e Biotecnologia Vegetal da Universidade de Coimbra e desenvolveu a tese com uma start-up, a Cool Farm. “Apresentava uma solução inovadora, uma ferramenta de controlo em estufas ou terrenos de produção agrícola”. Nessa altura, passou imenso tempo em Londres e Barcelona.

Fotografia drone: Rodrigo Oliveira

Quando regressou de vez a Portugal, veio cheia de ideias. Desenvolveu colaborações com entidades locais nas áreas da educação, restauração e atividades de desporto na natureza. No entanto, Rita sentia que faltava algo. “Uma zona de paragem e de descanso, mas também um elemento que interligasse o Norte e o Sul do país, tal como as pessoas e os negócios. Uma espécie de base, um hub colaborativo de partilha de conhecimento, produtos, serviços, riscos, clientes”.

Rita imaginou logo esse espaço no edifício e nos terrenos do seu negócio de família, que estava encerrado e abandonado há anos. “Via-o como uma ilha de terreno abraçada pela IP3 e N2 que funcionaria como o meeting point do Portugal Central, interligando rotas e património de uma forma colaborativa, procurando soluções que permitissem um relacionamento mais harmonioso com o nosso ambiente natural”.


Maqueta do projeto Indústria Central
Maqueta do projeto Indústria Central

Na sua mente também estava previsto um espaço de hospedagem. “O primeiro hostel industrial do centro de Portugal”, afirma Rita, a sorrir. “Algo que permita agilizar melhor a permanência de grupos e a partilha de competências para executar as atividades de restauro e construção e o consumo de serviços e produtos associados a uma estadia”.




Passou noites em frente ao computador a pesquisar, transferiu ideias para o papel, procurou programas de aceleração. Inscreveu-se no “TEC: Transformar, Empreender e Criar”, promovido pelo IEBA (Centro de Iniciativas Empresariais e Sociais) e pela AEDP (Associação Empresarial de Poiares). “Foi o meu primeiro bootcamp, na altura idealizei uma paragem de serviço que mais parecia um parque de diversões e que, no mínimo, ia custar dois milhões de euros”, refere, entre gargalhadas. 

Maqueta do projeto Indústria Central





Tudo era aprendizagem. Até as experiências menos boas. “Nos primeiros contactos com empreendedores sentia-me muito sozinha porque tanto os programas como as pessoas estavam formatadas para só ver os números”. O seu Indústria Central visava inspirar as pessoas a trabalharem integradas com o ecossistema, em cooperação logística, criativa e funcional. “O meu projeto ia resolver os problemas apresentados por vários empreendedores, mas mesmo assim, cada um insistia no 'cada um por si'”.

Mas Rita não desanimou e prosseguiu a sua caminhada. Algumas noites depois, deparou com um vídeo sobre lifestyle consciente e em harmonia com a natureza no Centro de Portugal, elaborado pelo projeto Wildlings.

Trata-se de uma plataforma criada por Lynn Mylou, holandesa de 36 anos (os últimos três a viver em Arganil), em parceria com jovens portugueses e estrangeiros, com o intuito de ativar o património humano e natural numa das zonas mais desertificadas de Portugal, o Pinhal Interior. Qualificados e cheios de competências, os wildlings organizam-se numa plataforma com conteúdos pedagógicos com o objetivo de inspirar um estilo de vida mais calmo, com qualidade e maior ligação à natureza.
“Foi uma lufada de ar fresco porque confirmou que a minha visão era possível”.




No dia seguinte, foi ainda mais motivada a uma conferência sobre linhas de financiamento. Na audiência, avistou um rosto que lhe era familiar. “Não acredito, é a Lynn”. Abordou-a, conversaram sobre “a redefinição dos luxos da vida”, encontraram ideias comuns. “Mesmo em idiomas diferentes, falamos a mesma linguagem”.

Rita envolveu-se no projeto e, inclusivamente, participou no episódio de uma websérie criada pelos wildlings que conta as histórias e motivações de jovens que escolheram esta região do interior para viver.


Rita com Lynn e a equipa de produção do vídeo


Rita idealizou que o Indústria Central funcionaria como “uma plataforma onde cada wildling mostrasse o seu talento e trabalhasse com as comunidades, demonstrando que é possível criar soluções harmoniosas com a natureza e mais rentáveis a curto, médio e longo prazo”. 




Já com o seu projeto mais fortalecido, Rita voltou aos programas de aceleração. Participou no “Fábrica de Startups” (Escola de Hotelaria de Coimbra) e no “Startup Olé – Salamanca”.

Com confiança redobrada, endereçou a nova candidatura ao Prémio José Manuel Alves. “Com ferramentas adequadas, muito trabalho, formações e estudo, elaborarei o que hoje é um plano estratégico e sustentável”.

O ecrã do telemóvel já estava branco. Impaciente, Rita já o consultava com as mãos cheias de farinha. Às 16:26 daquele 18 de Abril, ouviu-se um berro em toda a padaria. Todos os olhos se debruçaram sobre Rita, que esfregava o aparelho freneticamente, tentando certificar-se do que estava a ver. “Tinham acabado de publicar e o Indústria Central lá estava entre os finalistas”, afirma, com um sorriso rasgado. “O meu êxtase parou a produção e a alegria contagiou até o coelho da Páscoa”.


A distinção era uma vitória para a jovem empreendedora e para todo o percurso que tinha feito. “Significava que as entidades que gerem as necessidades e oportunidades do turismo em Portugal estavam conectadas com o propósito do meu projeto. Era mais uma voz a dizer-me que fazia sentido acontecer e executar”.

E a empreendedora ouviu-as todas, desde o início. E ouviu-a mais uma vez, quando lhe confidenciou que, por vezes, por mais que custe ao empreendedor reconhecer e aceitar isso, há acontecimentos e execuções que não dependem inteiramente da sua vontade e do seu campo de ação. Após tantos obstáculos ultrapassados, Rita deparou-se com um incontornável. A impossibilidade da cedência definitiva do espaço.

Foi um momento determinante. O caminho tinha agora duas bifurcações. De um lado, a sempre tentadora desistência. Do outro, a força para vergar uma das mais árduas resistências do empreendedorismo: Conseguir flexibilizar a inflexibilidade do que se idealizou.



Já no segundo percurso, Rita não olhou para trás. Lembrava-se bem da palavra “pivotar”, esse neologismo das start-ups – derivado do verbo inglês “to pivot”: “girar” e que significa alterar um negócio, identificando novas oportunidades com base no que já existe – tantas vezes repetido nos programas de aceleração que frequentou. 

Levava-o consigo na bagagem, juntamente com toda a experiência acumulada e com a essência do seu projeto, que permaneceu intacta quando redesenhou o conceito e o transformou na Casa Santa.
Vão poder conhecê-la e visitá-la amanhã, no segundo capítulo desta reportagem.

19 de junho de 2020

OpenCall202020 - Turismo Fundos


Turismo Fundos lança a OpenCall202020, colocando à disposição das empresas, principalmente das PME, a liquidez disponível nos fundos de investimentos imobiliários que gere, permitindo o acesso a um instrumento financeiro que se carateriza pela venda e subsequente arrendamento de longo prazo de um imóvel, com salvaguarda do direito de recompra do mesmo.

A iniciativa insere-se na medida 4.1.4 - Sale and Lease Back do PEES (Programa de Estabilização Económica e Social), aprovado pela Resolução do Conselho de Ministros n.º 41/2020, de 6 de junho. 

Dotação total: 60 M€
- Atividade turística: 40 M€ (20 M€ em territórios de baixa densidade e 20 M€ fora dos territórios de baixa densidade)
- Atividade industrial: 20 M€ 

Destinatários: 
- Empresas ​que sejam proprietárias de imóveis afetos à atividade turística ou industrial.

Elegibilidade: 
Empresas 
- Terem a situação regularizada perante a Autoridade Tributária e a Segurança Social; 
- Encontrarem-se registadas no Registo Central do Beneficiário Efetivo; 
- Não terem incidentes (não justificados) no mapa disponibilizado pela Central de Responsabilidade de Crédito mantida junto do Banco de Portugal. 

Imóveis 
- Encontrarem-se livres de ónus ou encargos (à data da concretização da operação); 
- Terem a sua situação matricial e predial regularizada; 
- Disporem de licença ou autorização de utilização, quando aplicável; 
- Disporem de certificado energético (SCE), quando aplicável; 
- Tratando-se de edifícios afetos a uma determinada atividade, disporem de autorização para o efeito     e, caso se trate de empreendimentos já existentes sujeitos a registo no Registo Nacional do Turismo, encontrarem-se devidamente registados. 

Condições: 
- aquisição de imóveis, para subsequente arrendamento, até um montante máximo de € 5.000.000 por operação 
- o preço de aquisição corresponderá, no máximo, a 90% da média simples do valor das avaliações do imóvel 
- Prazo do arrendamento: até 15 anos. 
- Renda: anual, paga mensalmente, corresponde a uma taxa sobre o valor da operação (entre 2,5%, para o caso das operações de imóveis localizados em territórios de baixa densidade, e 4% para as restantes operações). 
- Garantias: a definir pela Turismo Fundos em função das características de cada operação e entidade proponente. 

A OpenCall202020 está em vigor até que a Turismo Fundos considere que os objetivos da iniciativa se encontram cumpridos. 

Mais informação e candidaturas na Turismo Fundos​.



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