9 de março de 2018

20 março | Jornadas PlaticeMar | Figueira da Foz


A ACIFF – Associação Comercial e Industrial da Figueira da Foz, Associação Empresarial Regional, promove no próximo dia 20 de março, com início às 9h00 na Incubadora de Empresas da Figueira da Foz, as “Jornadas PlaticeMar”-Plataforma de Consolidação do Setor das TICE e Empreendedorismo na Economia do Mar, onde poderá ouvir casos de sucesso da Economia do Mar relevantes para a sua empresa, expandir a sua rede contactos e contribuir para a discussão a definição da estratégia para o sector, através de mesas-redondas com a participação de empresários e investigadores das principais Universidades Portuguesas.

Faça AQUI a sua inscrição

8 de março de 2018

12 março | Arganil | Sessão de Esclarecimento SI2E e REPOR

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A Câmara Municipal de Arganil vai promover, em parceria com o CLDS-3G, Arganil +Inclusiva, no dia 12 de março, pelas 18 horas, no salão nobre do município, uma sessão de esclarecimento sobre o SI2E e o REPOR, dois programas de incentivos às empresas exclusivamente direcionados para os concelhos afetados pelos incêndios de 2017.

Será dada a informação aos empresários do concelho que pretendem reerguer as suas empresas, os procedimentos necessários à elaboração e formalização de uma candidatura bem-sucedida. A Sessão contará com a presença da Autoridade de Gestão do CENTRO2020 e da Comissão de Coordenação e Desenvolvimento Regional do Centro.
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7 de março de 2018

Os Sentidos da Viagem


Marisa levou a palma da mão ao queixo e esticou o braço ao nível do peito. É um agradecimento, que acompanha a entrega de um envelope com uma viagem lá dentro. 
Amílcar apertou-lhe a mão com ternura, olhou-a nos olhos e retribuiu o agradecimento. “É indescritível finalmente ter uma agência de viagens onde todos compreendem a minha língua”.
O olhar de Marisa não o acusou, mas o seu pensamento liquefez-se. Tantas etapas e obstáculos, riscos, incertezas, insónias. Tudo vazava nas marés de um desígnio que sentiu cumprido. “Fazer a diferença”.
Acompanhou Amílcar à porta da agência e deixou-se ficar alguns momentos no exterior. Soprava uma brisa morna naquela manhã primaveril de Coimbra que a confortava, um conforto parecido com o que sentia quando ouvia a sua intuição. E Marisa ouvira-a toda a vida.


VIAGEM ACADÉMICA
“Sempre quiseste seguir jornalismo. O que foste fazer?”. Marisa compreendia a estupefacção do pai. Sempre sonhara ser jornalista e trabalhara arduamente para alcançar a alta média do curso em Coimbra. Mas desde que vira um panfleto a anunciar o curso de Língua Gestual Portuguesa (LGP) que algo tinha mudado. “Não sei explicar o quê, mas houve qualquer coisa que me cativou”. Num impulso, escolheu Língua Gestual como primeira opção e jornalismo nas restantes, em diversas cidades. O dilema com o pai atenuou-se com o tempo e com a entrada na faculdade.

Na semana da praxe, foi abordada por um surdo, que lhe perguntou as horas. Marisa paralisou. “Era provavelmente a pergunta mais fácil do mundo, mas eu não sabia o que dizer, o que fazer”. Entrou em pânico e não conseguiu responder. Na viagem de autocarro para casa, questionou-se se estaria no rumo certo. “Terei cometido um erro?”. 
Todos os dias fazia os 30 quilómetros do trajeto Condeixa-Coimbra-Condeixa. Essas horas no autocarro tornaram-se momentos de reflexão. Foi numa dessas viagens que encontrou a resposta. “Aquilo que eu senti, aquela impotência de não conseguir comunicar é o que eles sentem todos os dias. Quero perceber mais o mundo deles, quero alterar as coisas”.

O primeiro passo, deu-o com uma mudança. Coimbra, onde alugou um quarto num apartamento onde viviam quatro surdos. A sua vida quotidiana transformou-se em aprendizagem. “O convívio diário com pessoas surdas dá-nos uma fluência de língua que no contexto da sala de aula não conseguimos adquirir”. 
Rapidamente, os convívios extravazaram as paredes do apartamento. Marisa começou a acompanhar o grupo nos serões num café da cidade. Encontrava sempre três ou quatro mesas juntas, rodeadas de pessoas. “A comunidade surda é muito unida, convivem muito”.

Muitos vinham de longe. Era o caso de André Taipina, um jovem de vinte e poucos anos, que vinha de Cantanhede de propósito para estes convívios. “A sério? Grande doido!”. Esse foi o primeiro comentário de Marisa. O segundo, não foi verbalizado. Foi uma resposta concordante à sua intuição, que lhe disse que devia aceitar o convite para um café. Sairam, gesticularam, conversaram. Os convites multiplicaram-se, a amizade aprofundou-se e um dia, Marisa deu por si a questionar-se sobre como iria contar aos pais que tinha um namorado e que ele era surdo. “Natural”, sussurou-lhe a intuição. Mais uma vez, Marisa deu-lhe ouvidos. “Tudo decorreu de forma espontânea e com grande naturalidade”, afirma. 


GUINÉ-BISSAU, 1975 
Amílcar nasceu numa tarde ensolarada em Bissau. O seu choro era bem audível para todos, excepto para ele. A mãe foi a primeira a aperceber-se da sua surdez. Decidiu que seria melhor ele viver em Portugal, onde podia ter outro tipo de acompanhamento. Tinha dois anos quando descolaram ambos da África Ocidental rumo à Europa. Ficou a viver com a avó em Lisboa e fez todo o seu percurso escolar numa escola para crianças surdas. 
Durante a infância, na companhia da mãe ou da avó, viajou várias vezes ao seu país natal, para visitar a família e a sua terra. Todos esses voos acenderam-lhe um fascínio refulgente, que lhe despertou um sonho. Nunca se concretizou. O seu destino era outro.

VIAGEM A DOIS
As lâmpadas da sala começam todas a piscar. André levanta-se e vai abrir a porta. “Assim já não tenho de ser sempre eu”, afirma Marisa. A instalação de uma campainha luminosa – que faz piscar as luzes de todos os compartimentos da casa – foi dos poucos equipamentos de acessibilidade que tiveram de ser instalados na sua nova casa. Após um trimestre de namoro, decidiram viver juntos. “Mais uma vez, foi tudo natural”, diz Marisa. 
Muitas vezes, dá por si a ver televisão sem som. Habituou-se à “tranquilidade do silêncio”. A adolescente que ouvia música aos berros já não existe. A paixão pelos concertos, perdeu-se. Marisa desenvolveu alergia ao barulho. “Adaptei-me mais ao mundo dele, mas não sinto que tenha perdido algo do outro lado da fronteira”, afirma, a sorrir.

VIAGEM PROFISSIONAL
Terminada a licenciatura, Marisa foi confrontada com uma contrariedade. Não tinha estatuto de professora, mas de técnica profissional e o processo de candidatura era muito diferente.“Temos de percorrer Portugal de lés a lés para ir a entrevistas sem quaisquer certezas”.
Surgiu uma oportunidade, fora da sua área, dentro da sua cidade. Marisa aproveitou-a. Tornou-se gerente de uma loja. “Algo temporário que me garantisse estabilidade financeira e pudesse servir de almofada, se quisesse um dia mudar de plano”. Dois anos depois, sentiu que estava na hora de dar uso à almofada. Tinha evoluído e adquirido uma “aprendizagem e bagagem que não tinha”, mas estava na hora de mudar.
Profissionalmente, André também ambicionava algo mais. Começaram a planear um novo caminho juntos. “Algo que desse para aliar à minha área e que fizesse sentido para ambos”.
Partiram em viagem em busca desse sentido. Córdova, Málaga, Cádis, Marbelha e Sevilha. Em todos esses quilómetros e cidades, não visitaram nenhum museu nem fizeram uma visita guiada.
Nunca havia um intérprete de língua gestual. “Eu nem conseguia usufruir nem absorver informação e traduzir ao mesmo tempo”, refere Marisa. Confrontados com a situação, os agentes turísticos ofereciam descontos a André, por vezes até permitiam a entrada gratuita. “Mas não era isso que queríamos”. O casal desejava algo tão simples quanto legítimo: “comunicação”. Nunca a encontraram. Decidiram ser eles a criá-la.


PORTO, 1990

Chovia copiosamente e Amílcar percorria, desalentado, cada metro da Rua de Santa Catarina. Tinha-se deslocado à Invicta no âmbito de um evento desportivo da Associação Portuguesa de Surdos e, após um dia inteiro de atividades, estava na hora de arranjar alojamento. Mas ninguém parecia compreender aquele miúdo de 15 anos que, em vão, tentava fazer-se compreender. Tentava escrever, gesticular, usar mímica, mas a comunicação, pura e simplesmente, não se estabelecia e pedir direções na rua para um hotel revelava-se uma tarefa hercúlea. Após inúmeras tentativas, acabou por conseguir encontrar estadia nos Aliados
Premiu um botão que surtiu um efeito que os seus ouvidos não descortinaram. Após alguns instantes, chegou o rececionista. Amílcar respirou fundo e deu início à próxima contenda comunicativa. Voltou a gesticular, a apontar. Saber o preço do quarto, o que estava incluído, “era complicado, muito complicado”. Na manhã seguinte, abandonou o hotel sem saber que tinha direito ao pequeno-almoço.



VIAGEM FORMATIVA
O curso surgiu na altura certa. O desígnio estava bem assente na mente de Marisa: uma agência de viagens que alargasse a acessibilidade, não apenas para surdos, mas para cegos, pessoas de mobilidade reduzida, enfim, “para todos”. Só faltava destrancar e atravessar o mais árduo dos corredores, o que liga a idealização à materialização. O curso “PROVIA – Empreendedorismo e Gestão de Projectos”, organizado pelo IEFP, era a chave que Marisa precisava.
“Marketing, fiscalidade, questões legais, todos os passos para abrir uma empresa, aprendi imenso e ganhei uma bagagem tremenda”, afirma. Pouco a pouco, a barra dos obstáculos que Marisa pensava estar tão alta, ia descendo e tornando-se cada vez mais ultrapassável. Nesse processo, destaca três elementos: os conteúdos do curso, o grupo “extremamente colaborativo” em que calhou e os formadores: “Foram incansáveis não só no ensino como no incentivo, o seu apoio foi sem dúvida fulcral em todo este processo”.
No final do curso, teve de fazer um pitch perante uma plateia cheia. Marisa gravou a sua apresentação em língua gestual, com a respetiva legendagem por cima, e projectou-a na tela. “Lembro-me de como aquele silêncio foi arrebatador para os colegas”. No final, troaram os aplausos e Marisa abriu uma exceção à sua alergia ao barulho. “Senti que tinha sido marcante”.

VIAGEM TURÍSTICA

Marisa tinha a oportunidade de prolongar o curso com um estágio. Quando viu que o Turismo do Centro era uma possibilidade, nem pensou duas vezes. Na primeira reunião, soube que ia ficar no departamento de Apoio ao Investimento Turístico. Mais uma vez, à medida que avançava, o seu caminho parecia pavimentar-se de forma intuitiva.
Como a palma da sua mão, Marisa passou a conhecer apoios no sector, programas de aceleração, bolsas de empreendedorismo. “Foi uma grande fonte de conhecimento e de muito, muito apoio e incentivo”, afirma. 
No decurso do estágio, Marisa obteve liberdade para também trabalhar no seu projeto. À medida que a hora da verdade se aproximava, aumentavam as dúvidas. “E o risco financeiro? Não será melhor ter um trabalho e um salário como uma pessoa normal?”. Nesses momentos, encontrava sempre no Turismo do Centro o empurrão que precisava para continuar em frente. “Foram incansáveis!”. 

VIAGEM EMPREENDEDORA

O projeto de Marisa e André esteve muito tempo sem nome. “Por mais que procurássemos, não conseguíamos encontrar uma designação que se identificasse com a nossa missão”, refere Marisa. Quando pensou ter encontrado um – Faculdade das Viagens – rapidamente voltou à estaca zero. “Quando pedi a opinião ao meu mentor no Turismo do Centro, Gonçalo Gomes, ele disse muito honestamente: NÃO! E eu fiquei a pensar, realmente, é não mesmo”.
Passaram algumas semanas até Marisa ter o seu momento eureka. Curiosamente, também aconteceu no banho, tal como Arquimedes, quando descobriu o Princípio da Impulsão e imortalizou a famosa expressão. “Estava a sentir a água a cair e comecei a pensar na lógica do que é viajar, ir de um local para outro. Estou aqui, vou para ali. DaquiparaLi!”. Algo no seu âmago fez click e Marisa reconheceu o som. Estava decidido.

Foi já com a nova designação que DaquiparaLi concorreu ao concurso anual de empreendedorismo turístico (Prémio José Manuel Alves) do Apoio ao Investimento Turístico do Turismo do Centro. Marisa reviu cuidadosamente toda a matéria do curso Provia e redigiu a candidatura. Após algumas semanas de ansiedade, saíram os resultados. O DaquiparaLi era finalista. “A sensação de estar entre os oito primeiros dissipou-me todas as dúvidas e fez-me sentir verdadeiramente o valor do nosso projeto. Foi um grande impulso motivacional”.

A distinção abriu-lhe a porta a inúmeros eventos. Em todos, Marisa reutiliza a ideia do pitch do curso Provia. Sempre em LGP, seja projetada ou apresentada por André. “A maioria das pessoas não tem noção do que significa a ausência de um sentido e é muito comum prevalecer a resposta: 'Realmente, deve ser muito complicado'. Mas as pessoas não sentem o que dizem”, afirma Marisa. Complementa de seguida: “Então, a nossa abordagem é mesmo obrigar o público a sentir na pele alguma dificuldade para que possa assimilar e entender minimamente as dificuldades que uma pessoa surda tem diariamente”.
O seu objectivo é alterar a resposta comum. Transformá-la numa interrogação. “Então como alteramos a situação? O que fazemos para a melhorar?”.





COIMBRA, 2000

Há muito que estava esquecido o sonho de ser hospedeiro de bordo, impedido pela surdez.
No entanto, Amílcar decidiu que não a ia deixar impedir mais nenhum. Explorou vários: Informática, contabilidade. Gostava dos cursos mas, de alguma forma, não sentia que era isso que pretendia para a sua vida. Após muita reflexão, decidiu-se. “O meu caminho é o da mudança. Ajudar a mudar as coisas”. Fez as malas e mudou-se para Coimbra, onde tirou a licenciatura de ensino de LGP. Hoje, é professor na ESEC e na Escola Avelar Brotero, onde ensina pessoas surdas e ouvintes a comunicar.

VIAGEM EXECUTIVA
Concluídas algumas obras e superados alguns desafios burocráticos, a DaquiparaLi abre as suas portas em Outubro de 2017. Era época baixa e durante as primeiras duas semanas ninguém entrou na agência. O sogro disse-lhe que ia ser o primeiro cliente. “Acabou por não ser, veio cá um senhor e comprou uma passagem-de-ano na Madeira”, revela Marisa. Após esse jejum inicial, a DaquiparaLi começou a receber visitas e pedidos de informação diários nas redes sociais. 
Marisa explica que a agência “é para todos” e diferencia-se por dar “ênfase ao público que necessita de acessibilidade: Surdez, cegueira, mobilidade reduzida”. Informa que a missão é dotar de total independência todos os seus utilizadores. “Trabalhamos de uma forma extremamente personalizada com o cliente, não nos limitamos a dar apenas orçamentos mas também acompanhamos, aconselhamos e apoiamos, desde o momento em que ele chega até nós, até ao dia em que regressa da sua viagem”. Esse apoio, “pioneiro no país”, é garantido pelo atendimento em LGP sempre disponível, presencialmente ou por vídeo-chamada. “Fazemos várias com pessoas surdas a perguntar-nos se realmente oferecemos este tipo de serviços e ficam radiantes quando respondemos afirmativamente”, afirma Marisa. 
Um deles é Pedro Costa, presidente da Federação Portuguesa de Surdos, que já se tornou cliente habitual.

VIAGEM VINDOURA

A DaquiparaLi não demorou a receber uma nova medalha. Em Janeiro, é seleccionada pelo Turismo de Portugal para participar na Feira Internacional de Turismo (FITUR), em Madrid. “Tinham-me dito que seria uma porta de parceiros, mas tal não se verificou”, afirma Marisa. Um compasso de espera, um sorriso. “Foi um portão!”.
O próximo passo é satisfazer o pedido que tantas vezes ouviu nas bolsas de empreendedorismo. “Para quando uma componente tecnológica?”. Marisa afirma que estão, presentemente, a trabalhar na conceção de um protótipo de uma aplicação para telemóvel, que vai disponibilizar um guia virtual com língua gestual e áudio descrição. “Num próximo evento, quando me voltarem a fazer aquela questão, quem sabe se já não tenho algo para lhes mostrar”, afirma, com um sorriso cúmplice. “Algo me diz que sim”. Não explana. Durante toda esta sua jornada, aprendeu que não há necessidade de explicar a intuição.


COIMBRA, 2018
Há uma fronteira que delimita um antes e um depois na vida de Amílcar, desde a abertura da DaquiparaLi. A palavra confiança deixou de ser um território estrangeiro. “Em todas as minhas viagens nunca me conseguia sentir confiante, pois ficava sempre na dúvida se me entendiam ou não. Por mais que me esforçasse, havia sempre muitos detalhes que escapavam e me deixavam incapaz de usufruir em pleno”. Amílcar afirma que na DaquiparaLi, tudo isso mudou. “Quando a Marisa ou o André estão a atender, explicam tudo ao mais ínfimo detalhe, mostram para que eu veja, se ela faz alguma chamada relacionada com uma viagem para mim, explica-me tudo o que está a ser falado”. E esse acompanhamento, sublinha Amílcar, acompanha-o na viagem. “Sinto-me 100% confiante para onde quer que vá”. E já foi à Madeira e a Paris. Agora, chegou a vez dos Açores. Em breve, a sua aventura mais longínqua: Brasil. 
“Se não existisse a DaquiparaLi não sei se realmente faria estas viagens todas”.


Nota: No final de 2018 a Daquiparali passou a chamar-se Eu Voo. Saibam tudo aqui

2 de março de 2018

Turismo experiencial (des)tranca portas no Centro (Capítulo V)


Os escape rooms são uma atividade de turismo experiencial em expansão em Portugal. O desígnio é simples: Cinco pessoas são trancadas numa sala e têm 60 minutos para escapar. Para conseguir, vão ter de seguir várias pistas, aceder a passagens secretas, desvendar enigmas e, acima de tudo, trabalhar em equipa. É uma experiência completamente imersiva, as salas são temáticas e têm uma narrativa específica que cria uma atmosfera que envolve os participantes. Turistas, grupos de amigos, famílias, festas de aniversário, despedidas de solteiro(a) e eventos de team bulding para empresas, os públicos são muito diversificados. São vários os espaços em actividade na zona Centro do país. Por trás de cada escape room há um empreendedor que se apaixonou pela actividade e decidiu arriscar. Destrancaram-nos as suas portas e partilharam connosco as suas motivações, lutas e desígnios por trás de um investimento. Chamam-lhes Game Masters. Estas são as suas histórias.


Mysterio
Sala: “Vultus 2”
Website: Mysterio

Durante a noite, um jornalista de investigação entra num antigo colégio interno abandonado em Tomar. O som cadenciado dos ponteiros do relógio mistura-se com o seu batimento cardíaco, enquanto percorre as dezenas de salas escuras e corredores tenebrosos em busca de pistas para desvendar um mistério. 
O jornalista é uma equipa de um a seis participantes que aceite o repto lançado pelo “Vultos 2”: Sobreviver 60 minutos num espaço aterrador. Ninguém sabe o que vai encontrar lá dentro, mas uma certeza é garantida. Não vão estar sozinhos.

“O nosso evento não é um escape room em si, mas mais uma fusão de teatro imersivo de ação e terror que inclui alguns puzzles e enigmas a resolver”, esclarece de imediato Leonel Alves (34), presidente e diretor criativo da associação “Panóplia de Mistérios”, que organiza o evento.
No entanto, mantém-se muitos dos padrões dos escape rooms. É preciso trabalho de equipa para desvendar os mistérios e há 60 minutos para conseguir sair. A grande diferença é que, em vez de uma sala, vão ter de escapar de um edifício inteiro, na escuridão, com milhares de quilómetros quadrados para serem explorados. “E tudo isto enquanto são perseguidos por algo ameaçador”. Leonel frisa a palavra “algo”. Dá-lhe uma acentuação enigmática, algo sombria, ligeiramente clareada por um sorriso mudo, que parece dizer: “O resto é para descobrir e viver lá dentro”.


E têm sido muitas as descobertas. Centenas, quase milhares. As sessões esgotam com duas a três semanas de antecedência e muitos dos participantes rumam a Tomar de propósito. “Cerca de 70 por centro do nosso público vem de fora”, afirma Leonel, acrescentando que a maior fatia engloba grupos de amigos entre os 18 e os 40 anos. 

Como tudo começou? Se Leonel tivesse de assinalar uma origem, não colocaria uma cruz no dia em que fundou a sua associação, nem no dia em que firmou um acordo com a Câmara Municipal para a cedência do antigo Colégio Nun´Alvares.
Não. Leonel recuaria até uma longínqua tarde de Inverno nos anos 90, trancado no quarto a jogar “Resident Evil” na Playstation. 
Relembra, com nostalgia, esses momentos a tentar “sobreviver” numa antiga mansão perante um exército de mortos vivos, monstros e enigmas misteriosos. “Esse jogo fez-me sentir na pele o que seria sobreviver a um pesadelo real”, afirma. Lutar sob pressão e com poucos recursos, ao mesmo tempo que tinha que raciocinar. “Pareceu-me uma experiência excecional e única se a conseguisse materializar no mundo real, mas pensava que seria impossível”.

No entanto, após “20 anos de fabulações e imaginações”, Leonel viu escape rooms a nascer e eventos de terror a roçar o realismo. 
Decidiu fazer uma primeira experiência, “em tom de brincadeira”, com a ajuda da família e amigos. Apareceram cerca de 100 pessoas de todo o país. Apercebeu-se que podia fazer algo mais sério e profissional. “Alguns anos e muitas reviravoltas na vida depois, decidi tirar esse sonho da gaveta”. No Verão passado, surgia o “Vultos”.
O processo organizativo foi longo e árduo. “O facto de não haver nada semelhante em Portugal, nem legislação concreta foi o mais complicado”, afirma. Dispara logo de seguida: “Quando não há manual de instruções temos que ser nós a criá-lo”. Após todo esse processo, surgiu um outro obstáculo, talvez o derradeiro obstáculo: “Explicar a entidades e parceiros o que era este tipo de evento sem pensarem que eu era louco ou sádico”.
Uma barreira que, felizmente, a Câmara Municipal de Tomar superou facilmente: “Cederam-nos um colégio desativado enorme que está prestes a ser remodelado, sendo exatamente o que procurava por ter um aspeto antigo e algumas zonas degradadas”. 

Contrariamente ao que se poderia pensar, Leonel não vê filmes de terror e nunca foi a um escape room. “Ainda não existiam em Portugal quando comecei a pensar nestes projetos. Para além disso, sou autodidata, gosto de inventar eu as coisas”, afirma.
Em relação aos filmes, a resposta é simples: "Vi alguns quando era adolescente, mas nunca sozinho”, refere, antes de soltar uma sonora gargalhada. “Sempre fui medricas e tenho que admitir que sou uma pessoa que acredita no paranormal e que o teme”.
Confessa que os poucos filmes que vê dentro do género - como “Saw” ou “Insidious” - é para “estudar cenários”, mas, sublinha, “sempre acompanhado”.
Embora a deixe quase sempre encostada, nunca fechou a porta dessa fronteira que o liga aos universos que o aterrorizam. Inclusivamente, desenha e confeciona fatos de monstros que exporta maioritariamente para os EUA.
“Esse meu contato com o medo dá-me as ferramentas psicológicas para saber o que realmente assusta as pessoas”.


O facto da ação de “Vultos 2” decorrer num colégio interno que recebia estrangeiros e tinha fama de manter um ambiente bastante rígido ajudou na decisão. “Não há melhor cenário que um local real, especialmente quando a atmosfera do local já é assustadora”.
O tema escolhido remete para um filme de terror onde um psicopata rapta pessoas e leva-as para um edifício abandonado. “Combina o medo psicológico do desconhecido e paranormal, com o medo de sofrer fisicamente”, afirma Leonel. “Basicamente, no nosso evento, cada participante vive o seu próprio filme de terror em primeira mão”. 

Leonel frisa ainda a extrema dificuldade do evento. “Apenas dez por centro dos grupos consegue resolver os enigmas todos antes do tempo”. Faz uma pausa, como se aguardasse a pergunta óbvia, mas antecede-a: “Existem MUITAS coisas a acontecer para além dos enigmas”.
Logisticamente, houve imenso a fazer. A equipa remodelou algumas zonas, colocou detritos falsos, algumas luzes e sons em locais-chave e criou enigmas “rudimentares” em sintonia com o ambiente, “como se fosse mesmo um psicopata a criá-los”. “Nada de caveiras nem músicas de Halloween!”, assegura.
“Levamos o realismo muito a sério, não procuramos sustos fáceis e sim suspense e opressão psicológica constante”.


Confidencia que naquele colégio abandonado já houve ataques de pânico, desmaios, choros, pessoas a querem arrombar portas ou saltar através de janelas para fugir”. Esboça um longo sorriso e diz: “Mas no fim todos saem com um grande sorriso de alívio e tão divertidos que ainda dão sugestões para tornar o evento ainda mais aterrador numa próxima edição”.
A presente edição termina no final de Março. Posteriormente, Leonel promete novidades. “A terceira edição será completamente diferente, muito mais estranha e desafiante”. 
Nessa altura, já poderá entrar investimento exterior. “Fundámos a nossa Associação sem fins lucrativos exclusivamente para este tipo de projetos. Os custos são elevados e é uma atividade arriscada financeiramente”. Refere ainda que “Vultos 2” depende de pessoas com “aptidões muito especiais”. “O entusiasmo e a paixão para criar algo impactante e de alta-qualidade é o que move a minha equipa incansável”.

Leonel sublinha ainda a importância de manter “integralmente o controlo criativo” e afirma que toda a receita das bilheteiras serve para “manter e melhorar o evento”. Afirma que já existem planos para levar o conceito a “outro nível”, sendo que esse passo evolutivo já vai requerer “apoios, fundos e mentoring”.
Leonel altera a expressão. Mais uma vez, o semblante enigmático. “Temos grandes planos para 2018-20”.

1 de março de 2018

Concurso «Elevator Pitch – IdeiasQueMarcam» | Candidaturas Abertas | 27 fevereiro a 25 março


Por considerar que é importante continuar a apoiar os empreendedores, capacitando e encorajando todos aqueles que querem desenvolver os seus projetos e ideias de negócio, a Representação da Comissão Europeia em Portugal lança a 5ª edição do concurso “Elevator Pitch – IdeiasQueMarcam” O concurso tem como objetivo premiar projetos e ideias inovadoras com a oferta de formação e de um valor monetário que apoia o arranque desses projetos.

Durante o período de candidatura, serão realizadas seedcamps; as seedcamps são sessões compostas por uma parte de esclarecimentos sobre a preparação das candidaturas e por uma parte de formação e mentoria na conceção do modelo de negócio. As seedcamps vão decorrer em várias cidades do país:
  • 6 de março, no Scale Up Porto
  • 7 de março, na Startup Braga
  • 8 março, no Instituto Empresarial do Tâmega, em Amarante
  • 14 de março, na Universidade de Aveiro
  • 15 de março, no Instituto Pedro Nunes, em Coimbra
  • 16 de março, no Parque de Ciência e Tecnologia, em Évora
As Candidaturas decorrem entre 27 de fevereiro e 25 de março de 2018

Consulte o programa de seedcamps

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