Marisa
levou a palma da mão ao queixo e esticou o braço ao nível do
peito. É um agradecimento, que acompanha a entrega de um envelope
com uma viagem lá dentro.
Amílcar
apertou-lhe a mão com ternura, olhou-a nos olhos e retribuiu o
agradecimento. “É indescritível finalmente ter uma agência de
viagens onde todos compreendem a minha língua”.
O
olhar de Marisa não o acusou, mas o seu pensamento liquefez-se.
Tantas etapas e obstáculos, riscos, incertezas, insónias. Tudo
vazava nas marés de um desígnio que sentiu cumprido. “Fazer a
diferença”.
Acompanhou Amílcar à porta da agência e deixou-se ficar alguns momentos no
exterior. Soprava uma brisa morna naquela manhã primaveril de
Coimbra que a confortava, um conforto parecido com o que sentia
quando ouvia a sua intuição. E Marisa ouvira-a toda a
vida.
VIAGEM ACADÉMICA
“Sempre
quiseste seguir jornalismo. O que foste fazer?”. Marisa compreendia
a estupefacção do pai. Sempre sonhara ser jornalista e trabalhara
arduamente para alcançar a alta média do curso em Coimbra. Mas
desde que vira um panfleto a anunciar o curso de Língua
Gestual Portuguesa (LGP) que algo tinha mudado. “Não sei explicar
o quê, mas houve qualquer coisa que me cativou”. Num impulso,
escolheu Língua
Gestual como primeira opção e jornalismo nas restantes, em diversas
cidades. O dilema com o pai atenuou-se com o tempo e com a entrada na
faculdade.
Na
semana da praxe, foi abordada por um surdo, que lhe perguntou as
horas. Marisa paralisou. “Era provavelmente a pergunta mais fácil
do mundo, mas eu não sabia o que dizer, o que fazer”. Entrou em
pânico e não conseguiu responder. Na viagem de autocarro para casa,
questionou-se se estaria no rumo certo. “Terei cometido um erro?”.
Todos os dias fazia os 30 quilómetros do trajeto
Condeixa-Coimbra-Condeixa. Essas horas no autocarro tornaram-se
momentos de reflexão. Foi numa dessas viagens que encontrou a
resposta. “Aquilo que eu senti, aquela impotência de não
conseguir comunicar é o que eles sentem todos os dias. Quero
perceber mais o mundo deles, quero alterar as coisas”.
O
primeiro passo, deu-o com uma mudança. Coimbra, onde alugou um
quarto num apartamento onde viviam quatro surdos. A sua vida
quotidiana transformou-se em aprendizagem. “O convívio diário com
pessoas surdas dá-nos uma fluência de língua
que no contexto da sala de aula não conseguimos adquirir”.
Rapidamente,
os convívios extravazaram as paredes do apartamento. Marisa começou
a acompanhar o grupo nos serões num café da cidade. Encontrava
sempre três ou quatro mesas juntas, rodeadas de pessoas. “A
comunidade surda é muito unida, convivem muito”.
Muitos
vinham de longe. Era o caso de André Taipina, um jovem de vinte e
poucos anos, que vinha
de Cantanhede de propósito para estes convívios. “A sério?
Grande doido!”. Esse foi o primeiro comentário de Marisa. O
segundo, não foi verbalizado. Foi uma resposta concordante à sua
intuição, que lhe disse que devia aceitar o convite para um café.
Sairam, gesticularam, conversaram. Os convites multiplicaram-se, a
amizade aprofundou-se e um dia, Marisa deu por si a questionar-se
sobre como iria contar aos pais que tinha um namorado e que ele era
surdo. “Natural”, sussurou-lhe a intuição. Mais uma vez, Marisa
deu-lhe ouvidos. “Tudo decorreu de forma espontânea e com grande
naturalidade”, afirma.
GUINÉ-BISSAU, 1975
Amílcar
nasceu numa tarde ensolarada em Bissau. O seu choro era bem audível
para todos, excepto para ele. A mãe foi a primeira a aperceber-se da
sua surdez. Decidiu que seria melhor ele viver em Portugal, onde
podia ter outro tipo de acompanhamento. Tinha dois anos quando
descolaram ambos da África Ocidental rumo à Europa. Ficou a viver
com a avó em Lisboa e fez todo o seu percurso escolar numa escola
para crianças surdas.
Durante
a infância, na companhia da mãe ou da avó, viajou várias vezes ao
seu país natal, para visitar a família e a sua terra. Todos esses
voos acenderam-lhe um fascínio refulgente, que lhe despertou um
sonho. Nunca se concretizou. O seu destino era outro.
VIAGEM A DOIS
As
lâmpadas da sala começam todas a piscar. André levanta-se e vai
abrir a porta. “Assim já não tenho de ser sempre eu”, afirma
Marisa. A instalação de uma campainha luminosa – que faz piscar
as luzes de todos os compartimentos da casa – foi dos poucos
equipamentos de acessibilidade que tiveram de ser instalados na sua
nova casa. Após um trimestre de namoro, decidiram viver juntos.
“Mais uma vez, foi tudo natural”, diz Marisa.
Muitas
vezes, dá por si a ver televisão sem som. Habituou-se à
“tranquilidade do silêncio”. A adolescente que ouvia música aos
berros já não existe. A paixão pelos concertos, perdeu-se. Marisa
desenvolveu alergia ao barulho. “Adaptei-me mais ao mundo dele, mas
não sinto que tenha perdido algo do outro lado da fronteira”,
afirma, a sorrir.
VIAGEM PROFISSIONAL
Terminada a licenciatura, Marisa foi confrontada com uma contrariedade. Não
tinha estatuto de professora, mas de técnica profissional e o
processo de candidatura era muito diferente.“Temos de percorrer
Portugal de lés a lés para ir a entrevistas sem quaisquer certezas”.
Surgiu
uma oportunidade, fora da sua área, dentro da sua cidade. Marisa
aproveitou-a. Tornou-se gerente de uma loja. “Algo temporário que
me garantisse estabilidade financeira e pudesse servir de almofada,
se quisesse um dia mudar de plano”. Dois anos depois, sentiu que
estava na hora de dar uso à almofada. Tinha evoluído e adquirido
uma “aprendizagem e bagagem que não tinha”, mas estava na hora
de mudar.
Profissionalmente,
André também ambicionava algo mais. Começaram a planear um novo
caminho juntos. “Algo que desse para aliar à minha área e que
fizesse sentido para ambos”.
Partiram
em viagem em busca desse sentido. Córdova, Málaga, Cádis, Marbelha
e Sevilha. Em todos esses quilómetros e cidades, não visitaram
nenhum museu nem fizeram uma visita guiada.
Nunca
havia um intérprete de língua gestual. “Eu nem conseguia usufruir
nem absorver informação e traduzir ao mesmo tempo”, refere
Marisa. Confrontados com a situação, os agentes turísticos
ofereciam descontos a André, por vezes até permitiam a entrada gratuita. “Mas não era isso que queríamos”. O casal desejava
algo tão simples quanto legítimo: “comunicação”. Nunca a
encontraram. Decidiram ser eles a criá-la.
PORTO, 1990
Chovia
copiosamente e Amílcar percorria, desalentado, cada metro da Rua de
Santa Catarina. Tinha-se deslocado à Invicta no âmbito de
um evento desportivo da Associação Portuguesa de Surdos
e, após um dia inteiro de atividades,
estava na hora de arranjar alojamento. Mas ninguém parecia
compreender aquele miúdo de 15 anos que, em vão, tentava fazer-se
compreender. Tentava escrever, gesticular, usar mímica, mas a
comunicação, pura e simplesmente, não se estabelecia e pedir
direções na rua para um hotel revelava-se uma tarefa hercúlea.
Após inúmeras tentativas, acabou por conseguir encontrar estadia nos
Aliados.
Premiu
um botão que surtiu um efeito que os seus ouvidos não
descortinaram. Após alguns instantes, chegou o rececionista. Amílcar
respirou fundo e deu início à próxima contenda comunicativa.
Voltou a gesticular, a apontar. Saber o preço do quarto, o que
estava incluído, “era complicado, muito complicado”. Na manhã
seguinte, abandonou o hotel sem saber que tinha direito ao
pequeno-almoço.
VIAGEM FORMATIVA
O
curso surgiu na altura certa. O desígnio estava bem assente na mente
de Marisa: uma agência de viagens que alargasse a acessibilidade,
não apenas para surdos, mas para cegos, pessoas de mobilidade
reduzida, enfim, “para todos”. Só faltava destrancar e
atravessar o mais árduo dos corredores, o que liga a idealização à
materialização. O curso “PROVIA – Empreendedorismo e Gestão de
Projectos”, organizado pelo IEFP, era a chave que Marisa
precisava.
“Marketing,
fiscalidade, questões legais, todos os passos para abrir uma
empresa, aprendi imenso e ganhei uma bagagem tremenda”, afirma.
Pouco a pouco, a barra dos obstáculos que Marisa pensava estar tão
alta, ia descendo e tornando-se cada vez mais ultrapassável. Nesse
processo, destaca três elementos: os conteúdos do curso, o grupo
“extremamente colaborativo” em que calhou e os formadores: “Foram
incansáveis não só no ensino como no incentivo, o seu apoio foi
sem dúvida fulcral em todo este processo”.
No
final do curso, teve de fazer um pitch perante uma plateia cheia.
Marisa gravou a sua apresentação em língua
gestual, com a respetiva legendagem por cima, e projectou-a na tela.
“Lembro-me de como aquele silêncio foi arrebatador para os
colegas”. No final, troaram os aplausos e Marisa abriu uma exceção
à sua alergia ao barulho. “Senti que tinha sido marcante”.
VIAGEM TURÍSTICA
Marisa
tinha a oportunidade de prolongar o curso com um estágio. Quando viu
que o Turismo do Centro era uma possibilidade, nem pensou duas vezes.
Na primeira reunião, soube que ia ficar no departamento de Apoio ao
Investimento Turístico. Mais uma vez, à medida que avançava, o seu
caminho parecia pavimentar-se de forma intuitiva.
Como
a palma da sua mão, Marisa passou a conhecer apoios no sector,
programas de aceleração, bolsas de empreendedorismo. “Foi uma
grande fonte de conhecimento e de muito, muito apoio e incentivo”,
afirma.
No
decurso do estágio, Marisa obteve liberdade para também trabalhar
no seu projeto. À medida que a hora da verdade se aproximava,
aumentavam as dúvidas. “E o risco financeiro? Não será melhor
ter um trabalho e um salário como uma pessoa normal?”. Nesses
momentos, encontrava sempre no Turismo do Centro o empurrão que
precisava para continuar em frente. “Foram incansáveis!”.
VIAGEM EMPREENDEDORA
O
projeto de Marisa e André esteve muito tempo sem nome. “Por mais
que procurássemos, não conseguíamos encontrar uma designação que
se identificasse com a nossa missão”, refere Marisa. Quando pensou
ter encontrado um – Faculdade das Viagens – rapidamente voltou à
estaca zero. “Quando pedi a opinião ao meu mentor no Turismo do
Centro, Gonçalo Gomes, ele disse muito honestamente: NÃO! E eu
fiquei a pensar, realmente, é não mesmo”.
Passaram
algumas semanas até Marisa ter o seu momento eureka.
Curiosamente, também aconteceu no banho, tal como Arquimedes, quando
descobriu o Princípio da Impulsão e imortalizou a famosa expressão.
“Estava a sentir a água a cair e comecei a pensar na lógica do
que é viajar, ir de um local para outro. Estou aqui, vou para ali.
DaquiparaLi!”. Algo
no seu âmago fez click
e Marisa reconheceu o som. Estava decidido.
Foi
já com a nova designação que DaquiparaLi concorreu ao concurso
anual de empreendedorismo turístico (Prémio José Manuel Alves) do
Apoio ao Investimento Turístico do Turismo do Centro. Marisa reviu
cuidadosamente toda a matéria do curso Provia e redigiu a
candidatura. Após algumas semanas de ansiedade, saíram os
resultados. O DaquiparaLi era finalista. “A sensação de estar
entre os oito primeiros dissipou-me todas as dúvidas e fez-me sentir
verdadeiramente o valor do nosso projeto. Foi um grande impulso
motivacional”.
A distinção abriu-lhe a porta a inúmeros eventos. Em todos, Marisa reutiliza a ideia do pitch
do curso Provia. Sempre em LGP, seja projetada ou apresentada por
André. “A
maioria das pessoas não tem noção do que significa a ausência de
um sentido e é muito comum prevalecer a resposta: 'Realmente, deve
ser muito complicado'. Mas as pessoas não sentem o que dizem”,
afirma Marisa. Complementa de seguida: “Então, a nossa abordagem é
mesmo obrigar o público a sentir na pele alguma dificuldade para que
possa assimilar e entender minimamente as dificuldades que uma pessoa
surda tem diariamente”.
O
seu objectivo é alterar a resposta comum. Transformá-la numa
interrogação. “Então como alteramos a situação? O que fazemos
para a melhorar?”.
COIMBRA, 2000
Há
muito que estava esquecido o sonho de ser hospedeiro de bordo,
impedido pela surdez.
No
entanto, Amílcar decidiu que não a ia deixar impedir mais nenhum.
Explorou vários: Informática, contabilidade. Gostava dos cursos
mas, de alguma forma, não sentia que era isso que pretendia para a
sua vida. Após muita reflexão, decidiu-se. “O meu caminho é o da
mudança. Ajudar a mudar as coisas”. Fez as malas e mudou-se para
Coimbra, onde tirou a licenciatura de ensino de LGP. Hoje, é
professor na ESEC e na Escola Avelar Brotero, onde ensina pessoas
surdas e ouvintes a comunicar.
VIAGEM EXECUTIVA
Concluídas
algumas obras e superados alguns desafios burocráticos, a
DaquiparaLi abre as suas portas em Outubro de 2017. Era época baixa
e durante as primeiras duas semanas ninguém entrou na agência. O
sogro disse-lhe que ia ser o primeiro cliente. “Acabou por não
ser, veio cá um senhor e comprou uma passagem-de-ano na Madeira”,
revela Marisa. Após esse jejum inicial, a DaquiparaLi começou a
receber visitas e pedidos de informação diários nas redes sociais.
Marisa
explica que a agência “é para todos” e diferencia-se por dar
“ênfase ao público que necessita de acessibilidade: Surdez,
cegueira, mobilidade reduzida”. Informa que a missão é dotar de
total independência todos os seus utilizadores. “Trabalhamos de
uma forma extremamente personalizada com o cliente, não nos
limitamos a dar apenas orçamentos mas também acompanhamos,
aconselhamos e apoiamos, desde o momento em que ele chega até nós,
até ao dia em que regressa da sua viagem”. Esse apoio, “pioneiro
no país”, é garantido pelo atendimento em LGP sempre disponível,
presencialmente ou por vídeo-chamada. “Fazemos várias com pessoas
surdas a perguntar-nos se realmente oferecemos este tipo de serviços
e ficam radiantes quando respondemos afirmativamente”, afirma
Marisa.
Um
deles é Pedro Costa, presidente da Federação Portuguesa de Surdos,
que já se tornou cliente habitual.
VIAGEM VINDOURA
A
DaquiparaLi não demorou a receber uma nova medalha. Em Janeiro, é
seleccionada pelo Turismo de Portugal para participar na Feira
Internacional de Turismo (FITUR),
em Madrid. “Tinham-me dito que seria uma porta de parceiros, mas
tal não se verificou”, afirma Marisa. Um compasso de espera, um
sorriso. “Foi um portão!”.
O
próximo passo é satisfazer o pedido que tantas vezes ouviu nas
bolsas de empreendedorismo. “Para quando uma componente
tecnológica?”. Marisa afirma que estão, presentemente, a
trabalhar na conceção de um protótipo de uma aplicação para
telemóvel, que vai disponibilizar um guia virtual com língua
gestual
e áudio descrição. “Num próximo evento, quando me voltarem a
fazer aquela questão, quem sabe se já não tenho algo para lhes
mostrar”, afirma, com um sorriso cúmplice. “Algo me diz que
sim”. Não explana. Durante toda esta sua jornada, aprendeu que não
há necessidade de explicar a intuição.
COIMBRA, 2018
Há
uma fronteira que delimita um antes e um depois na vida de Amílcar,
desde a abertura da DaquiparaLi. A palavra confiança deixou de ser
um território estrangeiro. “Em todas as minhas viagens nunca me
conseguia sentir confiante, pois ficava sempre na dúvida se me
entendiam ou não. Por mais que me esforçasse, havia sempre muitos
detalhes que escapavam e me deixavam incapaz de usufruir em pleno”. Amílcar afirma que na DaquiparaLi, tudo isso mudou. “Quando a
Marisa
ou o André estão a atender, explicam tudo ao mais ínfimo detalhe,
mostram para que eu veja, se ela faz alguma chamada relacionada com
uma viagem para mim, explica-me tudo o que está a ser falado”. E
esse acompanhamento, sublinha Amílcar, acompanha-o na viagem.
“Sinto-me 100% confiante para onde quer que vá”. E já foi à
Madeira e a Paris. Agora, chegou a vez dos Açores. Em breve, a sua
aventura mais longínqua: Brasil.
“Se
não existisse a DaquiparaLi não sei se realmente faria estas
viagens todas”.
Nota: No final de 2018 a Daquiparali passou a chamar-se Eu Voo. Saibam tudo aqui.