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26 de novembro de 2018

O Crepitar das Memórias


Pai e filho estão sentados em frente à lareira. Estão em silêncio, só se ouve o som da lenha a arder e da chuva a bater nas portadas de vidro. Se as abrirem, o cheiro da terra molhada espalha-se pelo salão, cheio de obras de arte e antiguidades. Também esse cheiro é antigo. Ambos os homens recordam-no com facilidade das suas infâncias. Viveram-nas aqui, como tantos antepassados ao longo dos séculos. Ambos têm o mesmo nome, Francisco Paiva Calado. O pai tem 76 anos, o filho 42. Estão em silêncio mas esta lareira já testemunhou conversas que alimentariam volumes. No aconchego destas chamas já se falou dos reis e príncipes que aqui pernoitaram; dos salvamentos aqui planeados e executados de figuras históricas das invasões napoleónicas; nas ascendências e descendências da família que ondulam entre aios de Afonso Henriques, capitães que cruzavam os mares do extremo Oriente nas suas naus e cavaleiros que nunca regressaram de Alcácer Quibir. 
Mas hoje, não. Os Franciscos bebem uma cevada quente e partilham o silêncio deste entardecer de Outono, que debruça a sua cor de âmbar nos olhos cúmplices de pai e filho, separados por três décadas mas unidos por uma visão comum. A transformação de uma casa que passa de geração em geração há 450 anos num marco turístico incontornável da região Centro do país. Na Foz do Arelho, a Quinta da Foz é mais do que uma casa cheia de histórias. A casa é a História. 


ANCESTRALIDADE 

Foi no ano de 1568 que António Vaz Bernardes, cavaleiro da casa real, adquiriu a Quinta da Foz. Alguns anos depois (1581), o Rei Filipe I instituiu o morgadio na propriedade (que também era conhecida como Quinta de Nossa Senhora de Guadalupe), a única construção no lugar que se viria a denominar Foz do Arelho (Caldas da Rainha). “A povoação desenvolveu-se em torno da quinta”, refere Francisco. Explica que a quinta possuía bastantes terras à sua volta, que foram ao longo das décadas sendo cedidas a agricultores, primeiramente para o seu cultivo, posteriormente para a construção de habitações. Num morgadio, como era usual na época, esta cedência era feita sob a forma de pagamento de foros. 
Tradicionalmente, um morgadio era transmitido por herança ao descendente varão primogénito. Assim foi na Quinta da Foz, ao longo dos anos, décadas, séculos, até chegar ao proprietário atual.



A POSSIBILIDADE DO TURISMO

Francisco sorri com a questão. Não, a decisão de converter uma casa de família ancestral ao turismo não foi propriamente uma oportunidade. Foi uma necessidade. “Na brincadeira chamo-lhe a casa das obras. Assim que termina uma, inicia-se outra noutro lado. É uma casa muito dispendiosa, em manutenção permanente”, afirma. 
Em 1983 foi implementado o Turismo de Habitação em Portugal. Um tipo de alojamento em habitações com interesse patrimonial e histórico, geralmente solares e casas apalaçadas que conservam a sua herança cultural, refletindo-se essa conservação na sua hospitalidade.
O projecto foi lançado em quatro zonas piloto: Vouzela, Vila Viçosa, Castelo de Vide e Ponte de Lima. Esta última vila é conhecida pela vasta quantidade de solares barrocos do país. Alguns pertenciam a familiares de amigos de Francisco (filho), que resolveram apostar nessa nova tendência. A possibilidade despertou o interesse de Francisco. Em finais da década, pai e filho meteram-se à estrada e visitaram-nos a todos. “Fomos ver como funcionava, no fundo éramos uns amadores nisto, a nossa vida não era propriamente esta, isto ia modificar um bocado o nosso quotidiano na casa”. 



A REALIDADE DO TURISMO

Abrir ao mundo um espaço familiar não era uma decisão fácil. Francisco pensou bastante no assunto. Após ponderação, resolveu experimentar. Tudo parecia conjugar-se nesse sentido. Até o próprio espaço físico da casa era propício. “Habitamos no primeiro andar e temos o rés-do-chão inteiro disponível para o turismo”, afirma. Acrescenta: “Quem valorizar mais a privacidade, entra e sai às horas que quer, dispõe do seu tempo como quiser”. Por outro lado, quem quiser conviver, pode subir ao primeiro andar – onde são servidos os pequenos almoços – e privar com os anfitriões. 
Lá em cima, é onde o deslumbre acontece. Há três salões enormes, todos interligados por portadas abertas, todos decorados com objetos e artefactos antigos, recolhidos ao longo de gerações. A sala dos pequenos-almoços permite um vislumbre longitudinal de todos eles. Um vislumbre que acende a curiosidade e a vontade de explorar. Um vislumbre que relembra Howard Carter, arqueólogo inglês, quando alumiou à luz de vela um pequeno buraco que lhe permitiu espreitar pela primeira vez o túmulo de Tutankamon e dizer: “Vejo coisas maravilhosas”.
E o que maravilha os turistas na Quinta da Foz é que os anfitriões têm todo o prazer em mostrar esses espaços e conversar sobre tudo o que lá se encontra. Seja durante o dia ou num serão à lareira, Francisco sublinha essa predisposição. “Temos muito gosto em manter essas conversas, que penso que também lhes agradam”. Um livro antigo, uma espada, um quadro, uma estátua, um velho bacamarte, tudo tem um legado aqui. Não são objetos adquiridos para decoração. São objetos que fazem parte da história desta casa. E há tanta História nesta casa.



UMA CASA CHEIA DE HISTÓRIAS

O ranger do assoalho de madeira denuncia o regresso de Francisco. Senta-se, retira os óculos de uma pequena bolsa vermelha de veludo, coloca-os no rosto e perscruta, cuidadosamente, o índice do livro biográfico que foi buscar à biblioteca. Fez questão de responder a uma pergunta sobre o legado familiar com exatidão. Mas, na maior parte das vezes, dispensa a consulta. Sabe de cor nomes e linhagens inteiras, datas, locais de nascimento e de morte. Uma memória com raízes na infância. 
Nos anos 40, sem eletricidade e televisão, o programa que preenchia os serões na Quinta da Foz eram as conversas à lareira. Francisco relembra essas noites, algumas com sabor proibido porque ficava acordado até mais tarde, com o rosto iluminado apenas pela luz do fogo, a ouvir histórias misteriosas que os empregados contavam sobre bruxas que se reuniam numa eira nas noites de luar. Eram relatos que lhe causavam alguns arrepios, mas os que o fascinavam mais eram os da avó, que tinha sempre um episódio novo para partilhar sobre a história da família.
Foi pela sua voz que soube que Egas Moniz, aio de D. Afonso Henriques, tem uma ligação à sua família. “Ele teve vários filhos. Um deles, nessas alturas de conquista de território, instalou-se na região que agora se chama Castelo de Paiva. Construiu um torreão e instalou-se junto ao rio Paiva. Na época, as pessoas assumiam o nome das zonas onde se instalam e ele assumiu o nome do rio. Daí o nome Paiva, que ainda perdura na nossa família”.


Entusiasmado, como quem vira a página de um livro cativante, Francisco viaja até à altura em que o Rei D. Sebastião, ficou alojado na Quinta da Foz. Aconteceu no verão de 1569, quando um surto de Peste Negra se espalhou por Lisboa. Morriam 600 pessoas por dia na capital, instalou-se o pânico na corte e o Rei decidiu procurar refúgio noutra região. Ainda estava fresca a recordação da pandemia que dois séculos antes matara um terço da população portuguesa. 
João d’Eça era um dos cavaleiros próximos de D. Sebastião. Era também marido de Catarina Bernardes, filha do proprietário da Quinta da Foz. O rei acatou a sugestão do seu cavaleiro e passou lá grande parte do mês de Junho. “Esteve também algum tempo na Quinta do Bom Sucesso, onde mandou fazer um cais no topo da lagoa de Óbidos, onde passava as tardes a pescar”, afirma Francisco. 
O surto da Peste Negra durou até à Primavera de 1570 e colheu a vida de 60 mil pessoas. Oito anos depois, D. Sebastião nunca regressaria de Alcácer Quibir. D. João d'Eça também não.


“Mas há mais estadias reais na Quinta da Foz”, assegura Francisco, enquanto folheia mais uma página da história da sua casa. Conta que o Rei D. João V (1689-1750), costumava procurar alívio para as suas maleitas nas águas das termas das Caldas da Rainha. “A sua corte instalava-se nos arredores. O irmão, Infante D. Manuel (1697-1766), alojava-se sempre na Quinta da Foz”. 
Alguns séculos depois, o Rei D. Carlos I (1863-1908) também elegia a Quinta da Foz como destino preferencial. “ Ele gostava de vir à Foz do Arelho caçar tainhas a tiro, um peixe que salta frequentemente para fora da água”, diz Francisco. “Devia ser um excelente atirador”, complementa, com um sorriso. 
Para além do espaço, o rei elegeu também uma cama predileta. “Uma cama de birlos”, releva Francisco. Sempre que o monarca ficava noutro sítio da região, essa cama tinha de ser deslocada para lá. “Ficou conhecida como a ‘cama do rei’ e ainda hoje existe na família”.


Inclusivamente, há raízes desta família que estão ligadas a uma das histórias de amor mais célebres e trágicas de Portugal. “O nosso antepassado António Vaz Bernardes era avô de trisnetos do Rei D. Pedro I e Inês de Castro”, afirma Francisco. O casal real teve três filhos, incluindo D. João, que por sua vez foi pai de D. Fernando de Eça. Este último teve vários filhos, incluindo D. João de Eça, que teve o filho homónimo que casou com Catarina Bernardes, filha do senhor da Quinta da Foz. Desse casamento nasceram seis filhos, todos trisnetos de Pedro e Inês.


No topo de uma arca de madeira, está um busto com uma assinatura especial: Bordallo Pinheiro. Foi ele o escultor que imortalizou o rosto de Francisco Bernardes, bisavô de Francisco. O trabalho foi encomendado pela filha do homenageado, Ana Guadalupe Bernardes. “Ela própria tinha uma certa veia artística”, refere Francisco. Nos salões da Quinta da Foz há várias obras suas. Livros de poesia, serviços de flores esculpidos a cera e até um quadro muito peculiar, que exibe uma freira cujo manto foi bordado com os próprios cabelos da artista. 
Mesmo a arca que sustenta o busto conta uma história. Pertencia ao capitão Stockler (1759-1829), capitão-general dos Açores do Século XIX, que as transportava nos porões da sua nau quando cruzava os mares do extremo Oriente e do Atlântico. A bisavó de Francisco, Maria de Stockler de Albuquerque, era descendente do capitão. Num armário envidraçado dos salões da Quinta da Foz, está exibido um dos seus coletes oficiais.


“E a história do general Junot, pai?”. Francisco sorri com a interpelação do filho. “Ah, essa história...”, alude, numa infusão de interesse, enquanto leva a chávena de chá aos lábios. 
Conta que no início do século XIX, O general Junot comandou as tropas de Napoleão na primeira invasão francesa a Portugal. Após a derrota, durante a retirada das tropas em 1808, “o general foi apanhado na cidade de Santarém e a população queria fazer o seu linchamento”. 
A mãe do bisavô de Francisco, Catarina de Proença Monteiro, era casada com Cosme de Paiva, governador civil de Santarém. Ambos decidiram salvar o general. “Eles acharam que era indigno um oficial, mesmo que fosse do exército que nos estava a ocupar, ser linchado sem julgamento e enforcado em praça pública”, afirma Francisco. O casal delineou um plano, que culminou com o general a ser escondido e transportado na carruagem da família até aos limites do concelho. “A partir desse ponto, seguiria pelos seus próprios meios”. Durante imenso tempo não souberam o que tinha acontecido no resto dessa jornada, até que uma carta, proveniente de França e manuscrita pelo punho de Junot, lhes agradeceu o gesto. 
Essa carruagem, que chegou a estar em exposição num museu de Santarém, está no picadeiro da Quinta da Foz, onde são dadas aulas de equitação aos turistas.


As histórias são inúmeras e acumulam-se neste espaço que tem uma identidade tão própria que já serviu de palco para duas telenovelas, “Água de Mar” (RTP) e “A única Mulher” (TVI), ambas com episódios filmados nos seus salões, quartos e jardins. 


NOVOS DESÍGNIOS

Após todos estes anos, Francisco considera positiva a aposta no turismo. ”Definitivamente, foi uma decisão que valeu a pena”.  Sentado ao seu lado, o filho esboça um sorriso concordante. Também ele tem toda uma vida envolta no regaço destas paredes ancestrais; também ele delineia e prevê um futuro cada vez mais auspicioso neste projecto turístico.
Informa que  começaram por converter cinco quartos, mas optaram manter apenas quatro. “Um deles era mais pequeno e um pouco escuro, não era muito procurado. Fechámos, com a intenção de mais tarde transformá-lo, torná-lo mais acolhedor e apetecível”. Os anos foram passando e a procura foi subindo. “A estadia média na região é 1,3 dias. Os nossos hóspedes ficam, em média, quatro dias”, refere Francisco (filho). Recebem turistas de todo o mundo, com maior frequência holandeses, espanhóis, brasileiros, russos e ingleses. Estes últimos valorizam de forma mais intensa este tipo de património histórico. “Não mexam muito nisto! É isto que nós adoramos!”, ouviu de um turista londrino, quando o informou da intenção de proceder a obras de remodelação. “Não se preocupe, vamos apenas reforçar o conforto e a comodidade, sem comprometer a identidade”, assegurou. 
É esse um dos dois desígnios a curto prazo da Quinta da Foz. Remodelar os quartos e expandir a oferta, convertendo instalações desabitadas da quinta em apartamentos de férias. O outro desígnio é consolidar a oferta de experiências turísticas no espaço. Workshops de apicultura, roteiros vínicos, iniciação à equitação, piqueniques gourmet na quinta, treinos de falcoaria e até um um atelier de tiro com arco, com possibilidade de agendar torneios noturnos, com arqueiros vestidos a rigor, tochas e degustação de chás e licores locais.



É também possível deambular pelos jardins e espaços verdes da quinta, onde se podem encontrar diversos animais, desde pavões, gansos, cavalos, burros, pássaros e uma simpática cadela, adequadamente apadrinhada com o nome “Foz”. 
Para além dos “pequenos-almoços inesquecíveis”, que são servidos na sala de jantar com a lareira acesa, quem visita a Quinta da Foz destaca sempre o passeio pelas ruas e vielas dos séculos que a casa permite fazer, sempre guiado pela mão dos anfitriões. Os diálogos sobre o passado e legado deste local histórico despertam sempre interesse e, mesmo nas noites mais invernais, originam serões aconchegantes. As memórias ardem nesta casa. E os turistas sentem esse calor.